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Correios fatura mais em mercado onde não tem o monopólio

Na esteira das mudanças tecnológicas e de costumes, que deixam trocas de cartas à beira da extinção e fazem o comércio eletrônico crescer em proporções geométricas, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) acaba de dar uma guinada emblemática. Pela primeira na história da estatal, que completa 355 anos em 2018, as receitas com o segmento concorrencial superaram o faturamento com as atividades do monopólio postal.

As linhas se cruzaram no primeiro trimestre. Desde então, os números seguem rotas cada vez mais distintas e começa a abrir-se uma boca de jacaré nos balanços mensais. Em julho, isoladamente, a prestação de serviços em que há concorrência de empresas privadas rendeu R$ 770 milhões. São encomendas (Sedex e PAC), cargas expressas (e-commerce), propaganda (mala direta). Tudo o que fazem pesos-pesados como DHL, UPS e JadLog.

Na contramão, as receitas com serviços de monopólio garantido por lei encolhem e renderam R$ 620 milhões em julho. É o caso de cartas e telegramas, cartões postais, correspondências agrupadas (malotes), contas de luz ou de água, faturas de cartão de crédito — enfim, tudo o que vem dispensando carteiros e migrando gradualmente para o mundo digital.

Só para ficar com um exemplo menos óbvio dessa migração: o governo paulista deixou, neste ano, de enviar aviso postal de cobrança do IPVA e orientou os proprietários de veículos no Estado de São Paulo a acessar seus boletos online. Para os Correios, foram cinco milhões de correspondências a menos somente na capital.

No acumulado de 2018, o faturamento será composto por 55% de atividades concorrenciais e 45% de prestação exclusiva da ECT. Olhando para um horizonte de cinco anos, essa relação ficará em 85% a 15%, acredita o presidente da ECT, Carlos Roberto Fortner.

É uma verdadeira quebra de paradigma. Atuar prioritariamente em um mercado competitivo impõe novos desafios. Indicadores de qualidade precisam melhorar. Uma greve pode causar danos permanentes porque ninguém quer ficar dependente de uma empresa sem prazo de entrega definido. “O que era um usuário torna-se cliente”, afirma Fortner, que era vice-presidente de finanças e assumiu o comando da estatal em abril. “Restam dois caminhos aos Correios: consolidar-se como player de encomendas e logística ou transformar-se em um insignificante departamento postal do governo.”

O executivo diz que já se pode constatar melhoria dos índices no segmento de encomendas desde o início do ano. Mais de 96% das entregas foram feitas no prazo em julho — eram 83% em janeiro. O Sedex está demorando 1,5 dia para chegar ao destinatário e o PAC (entrega não expressa de objetos) alcançou um prazo médio de 4,6 dias, segundo a ECT.

“Temos que aumentar a produtividade para reduzir custos e aproveitar nossos maiores ativos, que são a marca e a capilaridade dos Correios. Estamos presentes em todos os municípios do Brasil.”

No segmento de encomendas, uma parceria está sendo costurada com a estatal Ceitec, que fabrica semicondutores no Rio Grande do Sul. A ideia é ter “tags” (etiquetas adesivas de identificação) fornecidos pela Ceitec em 100% das encomendas até o fim de 2019, permitindo a rastreabilidade dos objetos de porta a porta. Hoje são 1,1 milhão por dia — 30% dos quais vêm do exterior.

Fonte: Jornal Valor Econômico

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